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A Gazeta do Amapá > Blog > Colunista > Dra Denise Morelli > Narcisismo: quando o amor-próprio vira excesso
Dra Denise Morelli

Narcisismo: quando o amor-próprio vira excesso

Dra Denise Morelli
Ultima atualização: 5 de julho de 2026 às 08:44
Por Dra Denise Morelli 2 meses atrás
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Narcisismmo vem do mito grego de Narciso, um jovem que se apaixonou pela própria imagem refletida na água e não conseguia se afastar dela. Hoje a palavra descreve um traço de personalidade ligado a si mesmo, mas existe num espectro.

  1. Narcisismo saudável vs. patológico.
    Todo mundo tem um pouco de narcisismo. Ele é necessário.
  • Saudável: Autoestima, reconhecer seus méritos, ter limites, cuidar de si. É o que te faz dizer “eu valho” sem precisar diminuir o outro.
  • Patológico/Exagerado: Quando a imagem de si vira o centro de tudo. A necessidade de admiração é tão grande que a empatia pelos outros fica em segundo plano.

O Transtorno de Personalidade Narcisista, no DSM-5, é o extremo desse espectro. Só um psicólogo/psiquiatra pode diagnosticar.

  1. Características mais comuns do narcisismo elevado
    Não é só “gostar de selfie”. Os sinais que mais aparecem são:
  • Grandiosidade: Visão inflada de si mesmo. Ideias de ser especial, único, e só poder ser entendido por pessoas “de alto nível”.
  • Necessidade de admiração: Busca constante por validação, elogios e status.
  • Falta de empatia: Dificuldade real de reconhecer ou se importar com os sentimentos e necessidades alheias, a não ser que isso o beneficie.
  • Direito/Sentimento de merecimento: A crença de que regras comuns não se aplicam e que os outros devem tratá-lo de forma especial.
  • Inveja ou crença de ser invejado: Ou acha que todo mundo tem inveja dele, ou sente muita inveja do sucesso dos outros.
  • Arrogância: Atitudes e comportamentos prepotentes.
  1. De onde vem?
    Não existe uma única causa. A psicologia aponta uma mistura de:
  • Infância: Tanto excesso de idolatria “você é perfeito, melhor que todos” quanto críticas severas e falta de validação podem contribuir.
  • Temperamento e genética: Algumas pessoas têm maior vulnerabilidade.
  • Cultura: Sociedades que recompensam muito imagem, status e performance podem acentuar traços narcisistas.
  1. Como é conviver com alguém com traços narcisistas fortes?
    O padrão costuma ser um ciclo: Idealização > Desvalorização > Descarte. No começo a pessoa pode ser muito carismática e atenciosa. Com o tempo, críticas, manipulação sutil e falta de reciprocidade emocional aparecem. Limites bem firmes e não entrar em jogos de poder são as proteções mais importantes.
  2. E se eu me reconhecer nisso?
    Ter traços não te torna uma pessoa ruim ou “sem cura”. Autoconsciência já é o passo mais difícil. Terapia, principalmente abordagens como Terapia do Esquema ou Psicodinâmica, ajuda muito a desenvolver empatia, tolerância à frustração e autoestima que não depende só de aplauso externo.

Narcisismo não é sinônimo de vaidade. É sobre a relação que a pessoa tem consigo mesma e com os outros. No equilíbrio, ele é autoconfiança.

No excesso, vira isolamento.

Narcisismo em relacionamentos: a dinâmica por trás do encanto inicial.

Em relacionamento, traços narcisistas fortes costumam aparecer num roteiro bem parecido. Não é sobre a pessoa ser “vaidosa demais”, é sobre como ela lida com poder, controle e intimidade.

  1. As 3 fases mais comuns.
  2. Idealização / Love Bombing.
    No início é intenso. Muitos elogios, atenção 24h, você se sente “a pessoa mais especial do mundo”. A pessoa espelha seus gostos, sonhos e valores pra criar conexão rápida. Isso cria um vínculo muito forte logo de cara.
  3. Desvalorização.
    Quando a segurança da relação já existe, a máscara cai aos poucos. Vêm as críticas veladas, comparações, ciúmes, gaslighting “você está exagerando, isso nunca aconteceu”. Você começa a se sentir insuficiente e passa a buscar a aprovação de antes de novo.
  4. Descarte ou Ciclo de Vaivém.
    Ou a pessoa termina quando você já não serve mais como fonte de admiração, ou vira um ciclo: briga > culpa > reconciliação intensa > paz > briga de novo. Isso prende porque você fica esperando a “pessoa do começo” voltar.
  5. Sinais de alerta no dia a dia.

Fica de olho se você percebe:

  • Falta de reciprocidade emocional: A conversa sempre volta pra ela. Seus problemas são minimizados: “isso é pouco perto do que eu passo”.
  • Você anda pisando em ovos: Medo de dar opinião diferente porque vira briga ou “lei do gelo”.
  • Regras só pra você: Ela pode sair, ter amizades, errar. Você não.
  • Gaslighting: Negar fatos, distorcer conversas, até você duvidar da sua memória.
  • Triangulação: Te comparar com ex, amigos ou outras pessoas pra gerar insegurança: “Minha ex nunca reclamava disso”.
  • Empatia condicional: Só é carinhosa quando está sendo admirada ou quando quer algo.
  1. O impacto em quem está do outro lado.
    Conviver assim costuma gerar ansiedade, baixa autoestima, culpa constante e a sensação de estar “louco”. É comum a vítima se culpar e tentar “melhorar mais” pra recuperar a fase da idealização.
  2. Como se proteger e lidar
  3. Nomeie, mas não diagnostique: Você pode identificar comportamentos abusivos sem precisar dar laudo. “Isso foi desrespeitoso comigo” vale mais que “você é narcisista”.
  4. Limites concretos e consequências: “Se você gritar comigo, eu encerro a conversa e saio da sala”. E cumprir.
  5. Pare de justificar: Narcisismo se alimenta de debate infinito. “Eu entendo seu ponto, mas eu não concordo. Ponto final”.
  6. Rede de apoio fora: Isolar é parte da dinâmica. Mantenha amigos, família e terapia.
  7. Saia se virar padrão abusivo: Traço de personalidade não muda só porque você ama mais. Só muda com muito autoconhecimento + terapia da parte da pessoa, e isso precisa vir dela.

Importante*: Nem todo relacionamento difícil é com uma pessoa narcisista. Egoísmo, imaturidade emocional e narcisismo são coisas diferentes. E só um profissional pode diagnosticar Transtorno de Personalidade Narcisista.

Para saber mais:

Filmes:

  • Gone Girl – A Garota Exemplar
    Por quê ver: Amy é o estudo de caso perfeito de manipulação, controle de narrativa e vingança narcisista. Tenso do início ao fim.
    Gaslighting e necessidade de ser vista como vítima perfeita.
  • Her
    Por quê ver: A ex-esposa do protagonista mostra traços de frieza emocional, competição e incapacidade de lidar com a vulnerabilidade do outro.
    Falta de empatia e orgulho acima da conexão.
  • Enough Said
    Por quê ver: De forma mais leve e realista, mostra como insegurança + narcisismo velado sabotam um relacionamento maduro.
    Inveja e incapacidade de se alegrar com o outro.
  • O Lobo de Wall Street
    Por quê ver: Jordan Belfort é grandiosidade, direito, excesso e zero remorso. É narcisismo com glamour e dinheiro.
    Sentimento de merecimento e exploração dos outros.
  • Whiplash – Em Busca da Perfeição
    Por quê ver: Foca no professor Fletcher. Genial, mas abusivo, cruel e movido por ego. Mostra como um líder narcisista molda os outros.
    Sadismo + crença de estar “acima do bem e do mal” pelo talento.
  • O Diabo Veste Prada
    Por quê ver: Miranda Priestly é o arquétipo da chefe narcisista: carismática, brilhante, mas incapaz de validação genuína.
    Expectativa de tratamento especial e desumanização da equipe.
  • Cisne Negro
    Por quê ver: Mostra narcisismo + perfeccionismo virando obsessão. A mãe da Nina é um exemplo clássico de mãe narcisista que vive através da filha.
    Controle, crítica e “você existe pra me representar”.
  • A Rede Social
    Por quê ver: Mark Zuckerberg é retratado como genial, mas socialmente incapaz, movido por status e por provar algo.
    Falta de empatia em nome da ambição.
  • Náufrago
    Por quê ver: Parece estranho, mas a relação do Chuck com a bola “Wilson” mostra muito sobre o que acontece quando não temos validação externa. Ele cria um sinal principal, a necessidade de um espelho, mesmo que imaginário.

Se seu objetivo é entender um relacionamento real, começa por Gone Girl e Cisne Negro. Se for pra entender o lado “carismático e poderoso”, vai de O Lobo de Wall Street_ e O Diabo Veste Prada_.

Livros:

  • O Egoísmo Sadio – Andrew Morrison.
    Por quê ler: Desmistifica. Explica a diferença entre narcisismo saudável e patológico sem demonizar. Muito bom pra não cair no “todo mundo é narcisista”.
    Foco: O espectro do narcisismo.
  • Desarmando o Narcisista – Wendy T. Behary.
    Por quê ler: Escrito por uma terapeuta de esquemas. Mostra os 7 tipos de narcisistas e dá frases prontas pra colocar limite sem brigar.
    Foco: Convivência e limites. É o mais prático.
  • O Livro dos Narcisistas – Fernando Freitas.
    Por quê ler: Um dos mais conhecidos no Brasil. Linguagem direta e com muitos exemplos de relacionamentos.
    Foco: Narcisismo em família, trabalho e amor.
  • Mulheres que Amam Demais – Robin Norwood.
    Por quê ler: Clássico. Não fala só de narcisismo, mas explica por que a gente se apega em relações que nos esvaziam.
    Foco: Codependência e padrão de escolha.
  • Psicopatas Cotidianos – Ana Beatriz B. Silva.
    Por quê ler: Fala de manipulação, gaslighting e narcisismo no dia a dia. Ajuda a nomear comportamentos sem se culpar.
    Foco: Identificar manipulação sutil.
  • Já Chega! – Lysa TerKeurst
    Por quê ler: Mais espiritual/autoajuda. Trabalha culpa, limites e a ideia de que “ser boazinha” não é ser sem limites.
    Foco:
    Colocar limites com culpa.
  • O Caminho do Narciso – Humberto Maturana.
    Por quê ler: Filosófico e biológico. Fala de ego, amor-próprio e como a sociedade molda o “eu”.
    Foco: Narcisismo como fenômeno humano.
  • Tóxicos – Içami Tiba.
    Por quê ler: Brasileiro e muito direto. Fala de pessoas tóxicas no geral, incluindo o perfil narcisista.

Autoproteção e autoestima.

  • Desarmando o Narcisista
  • O Livro dos Narcisistas
  • Mulheres que Amam Demais_
  • O Egoísmo Sadio
    Livro não substitui terapia. Se o assunto tá mexendo muito com você, levar isso pra um psicólogo acelera muito o processo.

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Dra Denise Morelli 5 de julho de 2026 5 de julho de 2026
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