A classificação da Seleção Brasileira para mais uma Copa do Mundo deveria ser motivo de celebração quase unânime em um país que construiu parte de sua identidade nacional em torno do futebol. Afinal, o Brasil é o único participante de todas as edições do torneio, detém cinco títulos mundiais e permanece, historicamente, entre os favoritos em qualquer competição internacional. No entanto, o ambiente que antecede o próximo Mundial parece reproduzir um fenômeno observado nas duas últimas Copas: a crescente dificuldade de separar futebol e política. Em meio a um cenário de polarização intensa, vestir a camisa amarela deixou de ser, para muitos brasileiros, um simples gesto de apoio à Seleção para se tornar uma declaração involuntária de posicionamento ideológico. O resultado desse processo é um curioso sentimento coletivo de pessimismo que contrasta com a tradição vitoriosa do futebol brasileiro. O sociólogo britânico Eric Hobsbawm observava que poucas manifestações modernas são tão eficazes quanto o esporte para criar sentimentos de pertencimento nacional. Quando esse símbolo é capturado por disputas políticas, porém, sua capacidade de unir transforma-se em mais um fator de divisão.
A psicologia social oferece pistas importantes para compreender esse fenômeno. O psicólogo norte-americano Leon Festinger demonstrou que indivíduos tendem a rejeitar ou reinterpretar acontecimentos que possam fortalecer grupos dos quais discordam. Em contextos de polarização, essa dinâmica se intensifica. Assim, para determinados segmentos políticos, uma eventual conquista da Seleção pode ser percebida não apenas como uma vitória esportiva, mas também como um ativo simbólico capaz de beneficiar o governo de ocasião. Surge então uma resistência emocional que se manifesta sob a forma de pessimismo ou descrença. O cientista político Moisés Naím já alertou que sociedades altamente polarizadas passam a interpretar praticamente todos os acontecimentos por lentes ideológicas, inclusive eventos culturais e esportivos. Nessa lógica, o resultado de uma partida deixa de pertencer ao campo do entretenimento e passa a integrar a batalha permanente pela narrativa política.
O sociólogo francês Pierre Bourdieu ensinava que símbolos coletivos possuem enorme valor na disputa pelo poder e pela legitimidade. A camisa da Seleção Brasileira, por décadas associada apenas ao orgulho nacional, tornou-se um desses símbolos em disputa. O fenômeno não é exclusivo do Brasil. Nos Estados Unidos, pesquisadores como Robert Putnam identificaram que a polarização crescente enfraquece espaços de convivência capazes de unir cidadãos de diferentes visões políticas. Quando isso ocorre, até mesmo tradições compartilhadas passam a ser vistas com suspeita. A consequência é a erosão de referências comuns que historicamente funcionavam como pontos de encontro da sociedade. O futebol, que já serviu para interromper divergências e produzir sentimentos coletivos de pertencimento, passa a refletir as mesmas divisões presentes no debate público.
Talvez a principal vítima desse processo seja justamente a capacidade de os brasileiros celebrarem algo em conjunto. O filósofo alemão Jürgen Habermas defende que democracias saudáveis dependem da existência de espaços simbólicos compartilhados, onde diferenças políticas possam coexistir sem destruir o senso de comunidade. A Seleção Brasileira sempre ocupou esse papel. O pessimismo que hoje cerca parte da torcida não decorre necessariamente da qualidade dos jogadores ou das perspectivas esportivas da equipe, mas de um ambiente social em que tudo parece submetido ao filtro da disputa política. Recuperar a capacidade de torcer pela Seleção sem transformar cada jogo em um plebiscito ideológico talvez seja um dos desafios culturais mais relevantes do Brasil contemporâneo. Afinal, antes de representar governos, partidos ou lideranças, a camisa verde e amarela sempre representou uma nação inteira.
Quando a política invade a camisa da Seleção

