Vivemos uma época curiosa: nunca tivemos tanta tecnologia, tantos recursos, tantas ferramentas de planejamento, e, paradoxalmente, talvez nunca tenhamos vivido tão ansiosos. Planejamos o futuro enquanto negligenciamos o presente. Sofremos por possibilidades que talvez jamais aconteçam. Construímos tempestades mentais antes mesmo de surgirem nuvens no horizonte.
No capítulo 6 do Evangelho de Mateus, encontramos uma das mais conhecidas recomendações que o Mestre Jesus deixou como ensinamento. Ali, o evangelista registra orientações que atravessaram séculos sem perder atualidade: não andar ansiosos pela comida, pela roupa, pelo amanhã; observar as aves do céu e os lírios do campo; compreender que existe uma Providência que sustenta a vida. (MT 6: 25 – 26)
A máxima é simples e, ao mesmo tempo, revolucionária:
“Basta a cada dia o seu mal.”
A orientação não é um convite à irresponsabilidade, à passividade ou ao abandono dos deveres. Ao contrário. Trata-se de compreender que existe diferença entre planejamento e ansiedade. Planejar é agir racionalmente sobre o futuro; ansiar é sofrer emocionalmente por aquilo que ainda não existe. Ter fé negativa.
Como assim? Fé é crer sem ver e, muitas vezes, a mente nos leva a acreditar em cenários sombrios e negativos, que, muitas vezes só servem para nos atormentar, pois, a Providência Divina sempre traz um novo sol e uma nova terra para aqueles que crêem no Amor Ágape que Jesus veio ensinar para quem quer aprender.
Existe no ser humano sempre uma disciplina: tanto para o bem quanto para o mal; escolher qual caminho seguir é que transforma o resultado.
Curiosamente, essa reflexão encontra eco em uma afirmação contemporânea do empresário brasileiro Flávio Augusto da Silva: “A estabilidade é uma ficção.”
A frase pode soar desconfortável inicialmente. Afinal, desde cedo aprendemos a perseguir estabilidade financeira, emocional, profissional e até afetiva. Contudo, basta observar a história humana para percebermos que a mudança é a única constante.
Civilizações surgiram e desapareceram.
Tecnologias revolucionaram profissões.
Empregos desapareceram.
Mercados oscilaram.
Pessoas mudaram.
Nós mudamos.
Tudo tende ao movimento.
A própria natureza nos ensina isso. O universo expande. Os rios correm. As células renovam-se. O corpo envelhece. Nada permanece absolutamente estático.
Talvez o sofrimento moderno surja exatamente da tentativa constante de congelar aquilo que, por essência, nasceu para mover-se.
Se estabilidade absoluta não existe, surge então uma pergunta inevitável: o que fazer?
Talvez a resposta esteja justamente na combinação entre fé e movimento.
Ter fé não significa esperar milagres passivamente. Significa desenvolver confiança suficiente para continuar caminhando mesmo quando não existe garantia absoluta.
Isso exige vigilância.
Exige criatividade.
Exige produtividade.
Exige adaptação.
Exige esperança.
A vida parece menos uma linha reta e mais uma travessia permanente.
Estamos sempre a caminho.
Sempre aprendendo.
Sempre desconstruindo.
Sempre reconstruindo.
Talvez por isso seja necessário romper também certos paradigmas mentais relacionados à pobreza e à riqueza.
Muitas vezes reduzimos riqueza ao dinheiro e pobreza à ausência dele. Entretanto, existem pessoas financeiramente prósperas vivendo miséria emocional, espiritual ou intelectual. Existem pessoas simples economicamente, mas abundantes em propósito, saúde e significado.
Uma vida verdadeiramente rica parece exigir equilíbrio entre cinco dimensões fundamentais:
Saúde física — pois sem corpo funcional, os projetos enfraquecem.
Saúde mental — pois pensamentos adoecidos podem destruir oportunidades.
Saúde espiritual — pois significado sustenta jornadas difíceis.
Saúde financeira — pois recursos oferecem autonomia e dignidade.
Saúde cultural — pois conhecimento amplia horizontes e possibilidades.
Nesse sentido, pensamentos possuem consequências concretas.
Uma mente aprisionada permanentemente na escassez, no medo e na negatividade tende a produzir sofrimento, paralisia e prejuízos.
Por outro lado, uma mente treinada para possibilidades, aprendizagem, resiliência e gratidão costuma enxergar oportunidades onde outros veem apenas obstáculos.
Isso não significa negar dificuldades.
Significa escolher como caminhar através delas.
No final, talvez Jesus e a moderna lógica do empreendedorismo concordem mais do que imaginamos.
O amanhã continua incerto.
A estabilidade continua sendo transitória.
O movimento continua inevitável.
E talvez a verdadeira sabedoria esteja justamente nisso:
Viver plenamente o dia presente, trabalhar diligentemente, manter a esperança acesa e compreender que, afinal, basta a cada dia o seu mal.
A cada dia o seu mal
Professora, historiadora, coach practitioner em PNL, neuropsicopedagoga
clínica e institucional, especialista em gestão pública.

