Antes de exortar alguém em nome de Cristo, faça a si mesmo uma pergunta:
Cristo reconhece seu próprio Espírito na maneira como eu falo?
Não basta falar em nome de Jesus. É necessário falar com o Espírito de Jesus.
Jesus faz uma advertência aos discípulos quando eles querem fazer descer fogo sobre uma aldeia samaritana. Eles tinham precedentes bíblicos. Elias havia feito algo semelhante. Mas Jesus os repreendeu. O problema não era o que pretendiam fazer. Era o espírito que os estava movendo. É possível usar uma narrativa bíblica e ainda assim agir por um espírito contrário ao coração de Deus. Toda exortação cristã deveria carregar simultaneamente três coisas: verdade, humildade e esperança de restauração.
Verdade, porque o amor não mente. Humildade, porque quem corrige também precisa de graça. Esperança, porque o objetivo do confronto não é esmagar, mas trazer alguém de volta. Quando falta verdade, temos permissividade. Se falta humildade, temos arrogância religiosa. E a falta da esperança de restauração traz apenas condenação.
A exortação segundo Cristo diz: “Existe um caminho melhor. Volte.” Os profetas levantavam a voz porque desejavam que Israel voltasse para Deus. Paulo confrontava as igrejas porque queria apresentá-las maduras em Cristo. Toda correção aponta para alguma forma de restauração. Podemos confrontar comportamentos sem desumanizar pessoas. Defender a sã doutrina sem transformar a divergência em desprezo.
Existe uma diferença entre zelo e irritação. O zelo busca a honra de Deus. A irritação busca alívio para o próprio ego. O zelo sofre porque a verdade foi ferida. A arrogância se satisfaz por encontrar alguém a quem corrigir.
O fariseu da parábola de Jesus também falava de pecado, moralidade e práticas religiosas. Seu problema era que sua oração precisava de um pecador ao lado para que ele se sentisse justo.
“Ó Deus, graças te dou porque não sou como os demais homens.”
Essa frase continua aparecendo em muitas formas de exortação. Aparece no tom, no olhar, na ironia, na maneira professoral de corrigir. Na necessidade de deixar evidente que “eu estou vendo aquilo que vocês não conseguem ver”. É possível pregar arrependimento enquanto se alimenta o próprio ego.
A linguagem do arrependimento foi capturada pela religiosidade. Alguns dizem “arrependei-vos”, quando deveriam, na verdade, se arrepender da maneira como dizem isso. É possível convocar outros à mudança enquanto se permanece intoxicado pela própria importância. É possível denunciar o orgulho com orgulho. Combater a vaidade de maneira vaidosa. Defender a santidade e transformar a própria exortação em vitrine de superioridade espiritual. O problema não está no conteúdo da mensagem, mas no espírito de quem a pronuncia. Em vez de amor ao próximo, existe necessidade de se afirmar. Em vez de tristeza pelo erro alheio, existe prazer em apontá-lo. A dureza nesse caso pode ser confundida com coragem. A agressividade é chamada de zelo. Quem exorta segundo Cristo não transforma a fraqueza dos outros em oportunidade de autopromoção. Há uma pregação que diz “volte para Deus”, mas cujo subtexto é: “veja como eu estou perto de Deus e você está longe”.
Aquele que verdadeiramente ama pode ser severo. Pode advertir, confrontar, levantar a voz. Mas não se promove enquanto faz isso. Seu prazer não está em vencer uma discussão, mas em ganhar uma pessoa. Seu objetivo não é produzir humilhação, mas arrependimento. A exortação cristã não deveria fazer o mensageiro parecer grande e o destinatário inferior. Deveria fazer Cristo parecer necessário. Quando a denúncia se transforma em plataforma para a própria virtude, aquele que está gritando “arrependa-se” deve ser chamado ao arrependimento. Porque o evangelho nos concede um lugar na cruz. E nos adverte que todos que estamos de pé, somente estamos por causa da sua graça e misericórdia.

