O assédio eleitoral dentro do ambiente de trabalho voltou a acender um sinal de alerta no Norte do país. Pará e Amapá somam 20 processos relacionados à pressão política sobre trabalhadores e aparecem na 11ª posição do ranking nacional divulgado pelo Conselho Superior da Justiça do Trabalho (CSJT).
O número, porém, exige uma ressalva importante: os dois estados são contabilizados conjuntamente porque pertencem à jurisdição do Tribunal Regional do Trabalho da 8ª Região (TRT-8). Dessa forma, não é possível afirmar quantos dos 20 processos correspondem especificamente ao Amapá e quantos foram registrados no Pará.
Ainda assim, o levantamento revela a dimensão de um problema que ganhou força durante os últimos ciclos eleitorais: a tentativa de transformar relações profissionais em instrumentos de pressão política.
Quando o emprego vira instrumento de pressão
Assédio eleitoral ocorre quando empregadores ou superiores utilizam a relação de trabalho para constranger, ameaçar, pressionar ou oferecer vantagens com o objetivo de interferir na liberdade de escolha política e eleitoral dos trabalhadores.
Na prática, a pressão pode assumir diferentes formas. Entre os casos identificados estão ameaças relacionadas à manutenção do emprego e do salário, promessas de benefícios, cobranças para apoiar determinado candidato e até utilização de canais corporativos para fazer propaganda política.
O que deveria ser um ambiente destinado ao trabalho pode, nesses casos, transformar-se em espaço de coerção.
E o fenômeno não está restrito às conversas presenciais.
WhatsApp se transforma em ferramenta de pressão política
Um dos dados mais preocupantes do levantamento é a forte presença do ambiente virtual nas ocorrências. Segundo os dados analisados, 67,4% dos casos envolveram algum tipo de meio digital, com destaque para o WhatsApp.
Há registros de criação de grupos destinados à propaganda política, envio obrigatório de conteúdos eleitorais e situações em que trabalhadores teriam sido pressionados a publicar materiais de candidatos em seus próprios perfis pessoais.
A fronteira entre a relação profissional e a preferência política, nesses casos, praticamente desaparece.
O trabalhador deixa de ser apenas funcionário e passa a ser tratado como alguém que precisa demonstrar publicamente fidelidade política para preservar sua posição ou obter alguma vantagem.
Terror psicológico aparece em mais de 80% dos processos
Os números também mostram que a pressão não se resume a um simples pedido de apoio.
O chamado terror psicológico foi identificado em 81,9% dos processos analisados. Já algum tipo de intimidação econômica apareceu em 61,7% dos casos.
Entre as práticas relatadas estão ameaças relacionadas a salários, funções e manutenção do emprego, além de promessas de vantagens condicionadas ao apoio político.
O cenário é especialmente grave porque coloca o trabalhador diante de uma escolha que, em uma democracia, deveria ser absolutamente livre: votar de acordo com sua própria consciência, sem medo de perder o emprego ou sofrer represálias.
694 processos analisados em todo o Brasil
O levantamento do CSJT analisou 694 processos registrados nos 24 Tribunais Regionais do Trabalho entre maio de 2023 e dezembro de 2025.
São Paulo lidera o ranking, com 129 ações somadas entre os TRTs da 2ª e da 15ª Regiões. Em seguida aparece o Paraná, com 109 processos, e o Rio Grande do Sul, com 77.
Pará e Amapá, embora apareçam juntos na 11ª posição, somam 20 processos dentro da jurisdição do TRT-8.
O dado coloca a região sob os holofotes e reforça a necessidade de fiscalização, principalmente diante da proximidade das eleições de 2026.
Amapá reforça combate ao assédio eleitoral
No Amapá, a preocupação já levou instituições públicas a ampliar a articulação para combater esse tipo de prática.
Em junho deste ano, o Ministério Público do Trabalho (MPT) e o Ministério Público Federal (MPF) firmaram um acordo específico para fortalecer o enfrentamento ao assédio eleitoral no estado.
O Acordo de Cooperação Técnica nº 1/2026 envolve a Procuradoria do Trabalho no Município de Macapá, a Procuradoria da República no Amapá e a Procuradoria Regional Eleitoral.
A parceria prevê atuação integrada, criação de fluxos para tratamento das denúncias e utilização de ferramentas tecnológicas para captura e preservação de provas.
A estratégia ganha ainda mais importância diante do avanço da campanha eleitoral e do crescimento do uso de redes sociais e aplicativos de mensagens na disputa política.
4.273 denúncias nas eleições de 2022 e 2024
A dimensão nacional do problema também impressiona.
Segundo o Ministério Público do Trabalho, foram recebidas 4.273 denúncias de assédio eleitoral relacionadas às eleições de 2022 e 2024.
Somente em 2022, ano marcado por uma intensa polarização política, foram registradas 3.371 denúncias. Nas eleições municipais de 2024, o número caiu para 902, uma redução de 73,2%.
Apesar da queda expressiva, as instituições responsáveis pela fiscalização consideram o volume ainda preocupante.
Para as eleições de 2026, MPT, Tribunal Superior do Trabalho (TST) e Tribunal Superior Eleitoral (TSE) lançaram a campanha “No meu voto mando eu”, com o objetivo de orientar trabalhadores e empregadores e facilitar a identificação e a denúncia de situações de assédio eleitoral.
Liberdade de voto sob pressão
O problema ganha contornos ainda mais delicados quando a pressão política acontece justamente no lugar onde o trabalhador busca garantir sua sobrevivência econômica.
A relação de emprego envolve salário, estabilidade, benefícios e, em muitos casos, a única fonte de renda de uma família. Quando esse vínculo é utilizado para impor uma escolha eleitoral, a liberdade de voto pode ser diretamente comprometida.
Por isso, o assédio eleitoral não deve ser tratado como uma simples discussão política dentro da empresa. Trata-se de uma prática que pode atingir direitos trabalhistas e democráticos ao mesmo tempo.
No caso do Amapá, os 20 processos atribuídos conjuntamente à jurisdição do TRT-8 não permitem medir isoladamente a dimensão do problema no estado. Mas funcionam como um alerta.
Com as eleições de 2026 se aproximando e a disputa política ganhando intensidade, a preocupação das instituições é evitar que empresas, repartições ou relações hierárquicas sejam transformadas em espaços de coerção eleitoral.
No fim das contas, a mensagem das instituições é direta: o voto pertence ao eleitor — e nenhuma ameaça, salário, promoção ou emprego deveria determinar o que ele coloca na urna.

