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A Gazeta do Amapá > Blog > Colunista > Marcelo Castro > UM EQUÍVOCO NA ELEIÇÃO
Marcelo Castro

UM EQUÍVOCO NA ELEIÇÃO

Marcelo Castro
Ultima atualização: 13 de setembro de 2026 às 10:09
Por Marcelo Castro 4 dias atrás
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Por muito tempo, acreditamos que o cérebro fosse o grande e quase exclusivo centro responsável por organizar nossos pensamentos, sentimentos, decisões e comportamentos. Hoje sabemos que o corpo humano é muito mais complexo.
A ciência descobriu que o aparelho digestivo possui um extraordinário sistema nervoso próprio. O chamado sistema nervoso entérico reúne mais de 100 milhões de células nervosas distribuídas ao longo do trato gastrointestinal e consegue controlar diversas funções de maneira relativamente autônoma. A moderna ciência passou, inclusive, a estudar com maior profundidade a comunicação entre intestino, cérebro, sistema imunológico e microbiota.
Isso não significa que o intestino tenha consciência como o cérebro humano. Mas a descoberta nos ensina algo importante: o ser humano é muito mais complexo do que imaginávamos.
E então surge uma pergunta ainda maior: onde começa a consciência?
A religião responde a essa pergunta de uma maneira. A filosofia, de outra. A ciência continua investigando.
Para muitas tradições religiosas, o ser humano é formado por uma dimensão física e outra espiritual. A vida corporal seria apenas uma parte da existência, enquanto a alma representaria uma dimensão que transcende a matéria. A consciência, nessa perspectiva, não seria apenas um conjunto de impulsos elétricos, mas também o lugar simbólico onde habitam nossas escolhas, nossa responsabilidade, nosso remorso, nossa compaixão e nossa capacidade de distinguir o bem do mal.
A filosofia percorreu durante séculos esse mesmo caminho.
Descartes colocou o pensamento no centro da existência consciente. Locke relacionou a consciência à percepção de si e à continuidade da identidade pessoal. Kant foi além e tratou da unidade da consciência, procurando compreender como diferentes experiências podem formar a percepção de um mesmo “eu”. Mais tarde, a fenomenologia passou a estudar a própria experiência consciente, aquilo que significa estar no mundo e perceber a realidade a partir de uma perspectiva própria.
Talvez seja justamente aí que esteja o nosso maior desafio.
A consciência não serve apenas para saber. Ela serve para escolher.
E é nesse ponto que chegamos à política.
Em um país jovem como o Brasil, começamos a perceber que alguns valores fundamentais da administração pública — moralidade, legalidade, impessoalidade, responsabilidade e interesse coletivo — muitas vezes deixaram de ser critérios suficientes para orientar nossas escolhas.
No lugar deles, surgiram o personalismo, o imediatismo, a polarização, o interesse particular e aquilo que aprendemos a chamar de “jeitinho brasileiro”.
Não estou dizendo que o brasileiro seja moralmente inferior a qualquer outro povo. Muito pelo contrário.
Somos resultado de uma das maiores experiências de miscigenação humana da história. Somos um país continental, com diferentes biomas, culturas, sotaques, tradições e formas de enxergar o mundo.
Somos também, em grande medida, herdeiros de uma tradição cristã.
Nossa própria moeda carrega uma expressão que deveria nos fazer pensar: “Deus seja louvado.”
Nossa sociedade costuma colocar a família entre seus valores mais importantes.
E, ainda assim, continuamos diante de uma pergunta desconfortável:
Quando foi que começamos a errar?
Em que momento da nossa jornada evolutiva confundimos liberdade com irresponsabilidade?
Quando passamos a acreditar que votar é simplesmente apertar um botão?
Quando deixamos de perguntar quem é o candidato, o que ele pensa, o que defende, como pretende exercer o poder e, principalmente, qual é o seu compromisso moral com aquilo que representa?
Talvez o grande equívoco de uma eleição não esteja apenas no candidato escolhido.
Talvez esteja na consciência de quem escolhe.
A democracia nos entrega algo extraordinariamente poderoso: a possibilidade de participar da escolha de quem terá autoridade para tomar decisões em nosso nome.
Isso deveria ser tratado quase como um ato sagrado.
Mas muitas vezes transformamos esse momento em torcida.
Escolhemos como quem escolhe um time de futebol.
Defendemos pessoas que nem conhecemos.
Perdoamos em nossos aliados aquilo que condenamos violentamente nos adversários.
Aceitamos o erro quando ele vem do nosso lado e o transformamos em escândalo quando vem do outro.
Onde está a consciência?
Onde estão as universidades?
Onde estão os cientistas?
Onde estão os professores, os escritores, os jornalistas, os líderes religiosos, os filósofos, os empresários, os trabalhadores e todos aqueles que deveriam ajudar a sociedade a pensar?
Não se trata de escolher entre ciência e fé.
Talvez o grande desafio seja justamente recuperar a capacidade de fazer as duas conversarem.
A ciência pode explicar como funciona o cérebro.
Pode estudar o sistema nervoso entérico.
Pode investigar a memória, as emoções, o comportamento e os mecanismos da tomada de decisão.
Mas existe uma pergunta que permanece profundamente humana:
O que fazemos com aquilo que sabemos?
Essa pergunta nos conduz novamente à espiritualidade.
No Evangelho de João, quando questionado por sua afirmação de origem divina, Jesus responde aos seus interlocutores fazendo referência às Escrituras: “Não está escrito na vossa lei: Eu disse: sois deuses?” — João 10:34. A referência é ao Salmo 82:6.
Mas existe algo ainda mais interessante no texto.
O Salmo 82 não está simplesmente exaltando o homem.
Ele está cobrando responsabilidade daqueles que exercem autoridade. O próprio salmo fala contra julgamentos injustos e contra aqueles que tomam partido dos ímpios.
Ou seja: ter poder não significa ser Deus. Significa ter responsabilidade diante de Deus.
Talvez essa seja uma das maiores lições para uma democracia.
O voto entrega poder.
O poder exige responsabilidade.
E a responsabilidade exige consciência.
Estamos chegando ao final de um ciclo histórico. Uma geração inteira que construiu o século XX está desaparecendo lentamente. Cantores, atores, poetas, agricultores, empresários, professores, políticos e líderes que marcaram seu tempo estão partindo.
E nós começamos a perguntar:
O que essa geração está deixando para a próxima?
Tecnologia?
Sim.
Inteligência artificial?
Sim.
Conhecimento científico?
Certamente.
Mas e a moral?
E a espiritualidade?
E a capacidade de distinguir liberdade de libertinagem?
E a capacidade de reconhecer o certo mesmo quando ele está do outro lado?
A inteligência artificial poderá, cada vez mais, reproduzir nossas palavras, nossas imagens, nossos comportamentos e nossas marcas históricas.
Ela poderá aprender com tudo aquilo que deixarmos registrado.
E aqui está o perigo.
Se entregarmos às máquinas uma sociedade marcada pela intolerância, pela mentira, pelo ódio, pela corrupção, pelo preconceito e pela incapacidade de reconhecer nossos próprios erros, talvez estejamos construindo a maior fábrica de monstros cibernéticos do planeta.
E sabe qual poderá ser a marca?
Made in Brazil.
Não porque sejamos piores.
Mas porque temos uma oportunidade gigantesca de sermos melhores.
O Brasil possui território, população, diversidade, recursos naturais, universidades, ciência, tecnologia, fé, cultura e uma enorme capacidade humana.
O que nos falta talvez não seja inteligência.
Talvez nos falte consciência.
Por isso, antes de apertar o botão verde escrito CONFIRME, talvez devêssemos fazer uma pequena pausa.
Olhar para dentro.
Esquecer por alguns minutos a paixão partidária.
Esquecer o grupo de WhatsApp.
Esquecer o influenciador.
Esquecer o político que grita mais alto.
E perguntar simplesmente:
Estou escolhendo aquilo que acredito ser melhor para o meu país ou apenas aquilo que confirma aquilo que eu já queria acreditar?
Essa talvez seja a diferença entre votar e escolher.
Entre participar de uma eleição e exercer verdadeiramente a cidadania.
A evolução humana não termina quando aprendemos a dominar a natureza, construir máquinas ou criar inteligência artificial.
Talvez ela só esteja começando quando aprendermos a dominar aquilo que existe dentro de nós.
Porque o maior salto da humanidade não será tecnológico.
Será moral.
E talvez o Brasil não esteja diante de um problema de falta de inteligência.
Talvez esteja diante de um problema de consciência.
Que Deus nos ajude a encontrá-la.
Boa sorte.
Marcelo Castro.

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