Os anúncios, notícias e legendas escorriam rápidos na tela do celular. Os meus olhos buscavam e meus ouvidos selecionavam algo para pausar. Os vídeos sobre produtos indesejados se multiplicavam, aqueles sobre temporais e desastres repetiam-se – época de crise climática, época de crise humanitária, diria eu.
Já as imagens de políticos proliferavam-se como se fora decretado uma invasão israelense ou romana nos jardins dos palácios de Nabucodonosor… Ah, Babilônia.
Talvez o derramamento de tortuosa carga de nuvens em forma de tempestade despejada sobre as valas dos leitos dos rios obstruídos por gestos insanos daqueles que se consideram soberanos ou representantes do Altíssimo. Então, as encostas ou as margens desabam e as águas avançam sem constrangimento no espaço que já foi seu.
É nessa avalanche de fatos e dados verídicos e inverídicos que a minha tela avança e de repente alcançam versos inusitados: “”Eu ainda falo de flores e declamo seu nome. Mesmo meus dedos me traem e discam o seu telefone.”
Quem sabe o quanto amo flores já percebeu que pausei, desacelerei absorvida no “Eu ainda falo de flores…” Passaram-se mais de quatro décadas que o Moacir Franco lançou esse doce e romântica canção, no entanto, a reflexão é imediata e atual: será que em meio a tantos assuntos espinhosos ou ardidos, ou estúpidos ainda há espaços para falar de flores?
Ainda é justo falar de flores, sim, ainda é verdadeiro e bom falar de flores quando se observa os sorrisos nos olhos das “gentes” espalhando sementes de generosos saberes. Falar de flores quando se abençoa e bendiz os que nos antecederam ou ao envolver em gratidão incontida os verdadeiros amigos, cúmplices e parceiros de travessias diárias.
É impossível não falar de flores, apesar dos horrores das guerras em Gaza ou nos morros do rio ou nos garimpos clandestinos, ou, ou, ou… As flores nos trazem a lembrança do perfume que exala uma consciência verdadeiramente verdadeira – a memória da beleza de ser o que se é sem dar marcha ré na História.
Ainda falo de flores, falo do pôr e do nascer do Sol, do brilho metafísico da Lua, do afeto sublime das crianças. Ainda falo de humanidade, empatia, coragem e abraços que atravessam tempo e espaço. Ainda falo de flores. E planto. E cuido. E rego com amores.
Amores no coração enternecidos.

