Pode vir gripe, febre, dor de cabeça, indisposição… Eu resisto. Sou dessas que acha que um analgésico, um café e um pouco de teimosia resolvem quase tudo. Meu organismo já sabe: comigo, para conseguir uma folga, a doença precisa trabalhar dobrado.
Mas no último domingo aconteceu uma coisa diferente.
Fui derrubada.
E não foi por qualquer doença. Foi por uma dor que, sinceramente, parecia ter sido enviada diretamente do inferno com endereço certo e ordem de serviço para acabar com a minha noite.
A dor começou no meio da madrugada, bem ali, na região do estômago. Uma espécie de cãibra interna, só que sem a menor consideração pela anatomia humana. Começava na boca do estômago e irradiava para as costas.
Acordei assustada.
Pensei: “Isso não é normal.”
Levantei, tomei um analgésico e voltei para a cama acreditando, na minha santa ingenuidade, que alguns minutos depois estaria dormindo tranquilamente.
Ledo engano.
A dor aumentou.
E aumentou daquele jeito que faz a gente começar a negociar com Deus, com o universo e até com os próprios órgãos.
Virei para um lado.
Nada.
Virei para o outro.
Nada.
Sentei.
Pior.
Deitei.
Pior ainda.
Fiquei andando pela casa como quem procura uma posição secreta que só os escolhidos conhecem.
Não encontrei.
Quando o dia amanheceu, eu já estava praticamente fazendo amizade com o sofrimento. E foi aí que pensei: “É pancreatite. Tenho certeza. Minha vida está chegando ao fim e ninguém me avisou.”
Corri para a UPA.
Cheguei com a certeza absoluta de que meu pâncreas havia decidido pedir demissão.
O médico me examinou, ouviu meu relato e, para meu desespero, concordou que poderia ser uma crise de pancreatite.
Pronto.
Na minha cabeça, já estava fazendo uma retrospectiva da vida.
Fui encaminhada para o Hospital de Emergências.
E aí começou outra parte da aventura: esperar.
Três horas depois, eu já estava num estágio de dor em que considerava seriamente morder o concreto da parede. Talvez não resolvesse, mas pelo menos eu teria uma distração.
Foi então que resolveram fazer um ultrassom.
E veio a revelação.
Não era o pâncreas querendo me levar para o plano espiritual.
Era a minha vesícula.
Minha querida e discreta vesícula, que aparentemente vinha trabalhando em silêncio para montar uma pedreira particular dentro de mim.
O médico olhou o exame e explicou: são tantas pedras que nem dá para contar.
Como assim, doutor?
Eu fui ao hospital com uma pedra no caminho e descobri que tinha praticamente uma mineradora instalada na vesícula!
Logo eu, que tenho medo de seringa.
Tenho medo de agulha.
Tenho medo daquela aproximação do profissional de saúde com a seringa na mão e uma expressão de quem diz: “É só uma picadinha.”
Só que, naquele domingo, foram várias picadas.
Uma para medicamento.
Outra para tirar sangue.
Mais uma.
E outra.
A essa altura, eu já estava pensando que, se continuassem furando, poderiam aproveitar e procurar petróleo.
Tudo isso porque minha vesícula resolveu fazer uma coleção de pedras sem nunca ter me consultado.
Agora, passado o susto maior, veio a sentença: vou precisar fazer uma cirurgia para retirar essas pedras — e, provavelmente, a própria vesícula.
Confesso que, como toda boa medrosa, a palavra “cirurgia” me dá alguns arrepios.
Mas depois do que passei naquele domingo, cheguei à conclusão de que tenho duas opções: continuar carregando uma pedreira particular dentro do corpo ou resolver logo o problema.
E eu escolhi viver sem a pedreira.
Então, aqui estou eu, contando a história e tentando levar tudo com bom humor.
Porque doença pode até tentar me derrubar.
Mas, convenhamos, para conseguir, teve que juntar forças.
Dessa vez, a vesícula ganhou.
Mas foi só por enquanto.
Vou retirar as pedras, me recuperar e voltar à minha programação normal: reclamar das coisas pequenas, rir das grandes e continuar acreditando que meu corpo não tem autorização para inventar novas aventuras sem me consultar.
E fica a lição:
Nunca subestime uma dor na boca do estômago.
E nunca confie numa vesícula silenciosa.
Às vezes, enquanto a gente está vivendo tranquilamente, ela está lá dentro, trabalhando em silêncio…
Construindo uma pedreira.
Eu sempre digo que doença não me derruba com facilidade
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